
A vida sobre rodas dos caminhoneiros brasileiros é um testemunho diário de desafios, longas jornadas e a incerteza de uma profissão vital para a economia do Brasil. No entorno de Marília, nas rodovias Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294) e na imensa Transbrasiliana (BR-153), motoristas relataram ao jornal A Cidade dificuldades que permeiam o transporte de cargas de ponta a ponta no Brasil.
A BR-153, conhecida como Rodovia Transbrasiliana, é uma das artérias vitais do país, nascendo em Aceguá, no Rio Grande do Sul, e cortando o território nacional até Marabá, Pará. Com uma extensão de aproximadamente 3.585 quilômetros, ela atravessa 8 Estados brasileiros (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins e Pará), ligando centenas de municípios e desempenhando um papel crucial no transporte de cargas. Rodovias como a BR-116 (Rodovia Régis Bittencourt/Via Dutra/Rio-Bahia), a BR-101 (Litorânea) e a BR-364 (que conecta o Sudeste ao Norte e Centro-Oeste) detêm equivalência em relevância comercial, abrangência e número de cidades lindeiras, sendo pilares para a logística e o agronegócio nacional.
Um dos entrevistados, Anderson Souza, morador de Portão, uma cidade gaúcha de 40 mil habitantes na Região Metropolitana de Porto Alegre, compartilhou uma história de resiliência. Em 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou um período devastador de enchentes, especialmente entre o final de abril e o início de maio, que resultaram em centenas de mortes (mais de 180) e um enorme número de desabrigados e desaparecidos, afetando gravemente a capital e suas adjacências. Curiosamente, Portão não sofreu inundações severas, tornando-se um refúgio para muitas famílias deslocadas de Porto Alegre e municípios vizinhos.
Anderson, com 10 anos de estrada, hoje conduz uma carreta que transporta carros da Fórmula VNT, uma modalidade de automobilismo disputada em pistas rústicas de terra. "São os pilotos de terra, as pistas do VNT são na terra batida mesmo", informou Anderson, que transporta os carros de corrida de três pilotos, incluindo Roberto Walter. A mesma condição rústica que os integrantes da equipe enfrentam nos circuitos da competição, ele encontra na lida diária, cortando o Brasil de ponta a ponta.
Ao parar em Marília, em um dos postos da BR-153, Anderson fazia uma breve parada antes de seguir viagem para Goiás, pela Transbrasiliana. A jornada havia começado no domingo, vindo do Sul do Brasil. Refletindo sobre a profissão, Anderson criticou: "É uma profissão onde os gastos acabam comprometendo o lucro de quem vive de frete". Sua principal indignação era com a cobrança de pedágios, especialmente na BR-153, cujas pistas ele descreve como "simples, ruins e em estado lamentável". Para ele, "é um absurdo pagar um pedágio para rodar numa estrada nesta situação".
30 anos de estrada
Na rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294), o motorista Ronaldo Moreira, com 30 anos de profissão, iniciada em 1995, contou que se inspirou no pai. Seu Isaú Moreira foi taxista em Marília por meio século, com ponto fixo no centro da cidade, no cruzamento das ruas Nove de Julho com São Luiz. Antes do falecimento de seu Isaú, Ronaldo já seguia a vida profissional de motorista. Ao longo de sua carreira, já esteve em diversos estados, incluindo Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Ceará, Pará e Maranhão. Inicialmente, transportava cargas para a indústria alimentícia de Marília e, atualmente, trabalha para uma transportadora que continua atendendo esse segmento, mas não realiza mais trechos tão longínquos como Marília ao Pará, focando agora em destinos nos estados de São Paulo e Paraná.
Ronaldo também ressaltou o alto custo de manutenção de uma carreta. Apenas para encher os dois tanques com óleo diesel, o gasto ultrapassa a casa dos R$ 4 mil, valor que permite rodar aproximadamente 1.200 quilômetros. Ele também criticou o preço elevado dos pedágios, afirmando que isso afeta diretamente o valor do frete e os ganhos dos caminhoneiros. Para economizar, os sacrifícios são comuns, como dormir na cabine do caminhão e elaborar a própria comida.
A profissão de caminhoneiro, vital para o país, enfrenta um cenário de desafios crescentes. No Brasil, estimativas apontam para um déficit de profissionais, com dados indicando uma redução de 18% no número de motoristas com CNH categorias D/E entre 2011 e 2023, e uma previsão de que 30% dos caminhoneiros atuais se aposentarão até 2026. Para atuar, é exigida a CNH categoria E, além de cursos especializados como o MOPP (Movimentação Operacional de Produtos Perigosos), para o transporte de cargas específicas. Os principais desafios apontados em pesquisas e levantamentos do setor incluem a precariedade das rodovias, altos custos operacionais (combustível e pedágio), segurança nas estradas (roubos e acidentes), longas jornadas de trabalho e a falta de infraestrutura de apoio ao longo das rotas. Em julho, celebra-se o Dia do Motorista (25 de julho), uma data para reconhecer a importância e os desafios desses profissionais essenciais para a economia brasileira.