
A invisibilidade dos bairros mais carentes de Marília ganhou contornos oficiais. Dados recentes do Censo 2022 do IBGE, analisados pela reportagem do jornal A Cidade, revelam que 3.190 habitantes da cidade vivem em 13 aglomerados subnormais, a definição técnica para favelas e comunidades urbanas precárias. O retrato- que corresponde a 1,34% da população mariliense - é de um município que, apesar de ser um polo regional em desenvolvimento, esconde um déficit brutal de urbanização básica em pleno Século XXI. A principal lacuna dessas comunidades é a ausência de saneamento adequado, com parcelas significativas da população vivendo sem esgoto ou coleta formal de lixo, uma falha que expõe o planejamento urbano e a prioridade das gestões municipais. O contraste é ainda mais gritante ao Marília ser uma das raras cidades brasileiras com estações que afastam e tratam o esgoto de residências e imóveis formais - que estão conectados à rede atualmente administrada pela RIC Ambiental.
A precariedade se manifesta de forma mais aguda no que diz respeito à infraestrutura mínima de habitabilidade. Muitos dos moradores desses assentamentos sequer dispõem de sistema de esgotamento sanitário por rede geral, dependendo de soluções rudimentares como fossas rudimentares ou, pior, a ausência total de tratamento. O déficit não para por aí: 1.5% das moradias estão sem acesso a água encanada e 13% sofrem com a falta de coleta regular de lixo, forçando comunidades a conviver com o descarte inadequado e com os riscos ambientais e de saúde decorrentes. Os números do Censo funcionam como um raio-X social que o poder público vinha se esforçando para ignorar ao longo dos anos.
A 163ª do Brasil
O problema de Marília, contudo, é um espelho ampliado da desigualdade brasileira. O município, com 1.222 domicílios distribuídos das 13 favelas locais, ocupa a 163ª posição no ranking nacional das cidades com favelas e comunidades urbanas, uma lista que é ironicamente liderada por São Paulo. A capital, a cidade mais rica do Brasil e do continente, é também a que mais concentra populações em condições precárias, somando 1.359 favelas. Em seguida, vem o Rio de Janeiro, a 2ª colocada, que possui impressionantes 813 comunidades, mais de 800 favelas a mais do que o total registrado em Marília.
Além do saneamento, 8,2% dos domicílios nessas áreas não possuem nem sequer pavimentação na rua do entorno, o que transforma o tráfego e o acesso em verdadeiros desafios em dias de chuva. A luz formal também é um problema: 1,9% das casas não têm iluminação pública e 1,5% estão sem o fornecimento de energia elétrica.
As 13 favelas e comunidades urbanas precárias de Marília catalogadas pelo Censo 2022 são: Alcides Matiuzzi, Argolo Ferrão, Homero Zaninotto, Jardim Eldorado (conhecido como Bronks), Jardim Santa Paula, Jardim Virgínia (o Bugrinho), Parque das Azaleias, Parque das Nações, Parque das Vivendas, Toffoli, o histórico trilho da antiga Fepasa e a tradicional Vila Barros.
Os desfavelamentos recentes
Marília não possui programas de desfavelamento ativos desde 2016. Na época, durante o primeiro mandato (2013-2016) do atual prefeito Vinicius Camarinha, houve um esforço concentrado que resultou na retirada de famílias que viviam sob os fios de alta tensão na zona Norte, popularmente conhecida como a 'Favela do Linhão'. No mesmo período, foram erradicadas as comunidades da Vila Altaneira, do Jânio Quadros e uma ocupação irregular na zona Oeste, com as famílias removidas e alojadas em casas de alvenaria em conjuntos como o Marina Moretti, no extremo Norte, ou em apartamentos do residencial São Bento, no extremo Sul.
Apesar dos avanços de oito anos atrás, a paralisação dos programas de regularização fundiária e urbanização desde 2016 permitiu que novos focos de precariedade se consolidassem, enquanto os antigos continuam a operar à margem da lei e da dignidade. A falta de continuidade na política habitacional é um dos principais fatores que perpetuam o ciclo de assentamentos informais, onde a moradia precária se torna a única opção para famílias de baixa renda. É uma conta social que, se não for paga agora com investimentos em infraestrutura, será cobrada no futuro com mais violência e exclusão.
Além da ausência de pavimentação e saneamento, o acesso ao lazer e à cultura é negligenciado: 8% das moradias estão em entornos sem nenhuma área verde ou de lazer, e 1,5% sem quadra ou campo esportivo.
O diagnóstico do Censo 2022 é inquestionável: quase 3.200 mil marilienses, o equivalente à população de um município pequeno, a exemplo de Alvinlândia, Arco-Íris ou Oscar Bressane, vivem em condições que remetem ao século passado. Porém, o mapa da precariedade que está desenhado, pode ser redesenhado com políticas públicas e iniciativas habitacionais com trabalho do Município e apoio do Estado e Governo Federal.