A trajetória de Marília rumo à formalização de seu Parque Tecnológico e de Inovação oficial começou sob forte otimismo no segundo semestre de 2014. Naquele período, impulsionado por uma reportagem de circulação nacional que destacava o crescimento exponencial do setor de Tecnologia da Informação (TI) mariliense, o município recebeu a visita do então governador Geraldo Alckmin.
No saguão do aeroporto municipal, Alckmin autorizou pessoalmente o início dos trâmites para que a cidade se tornasse a 29ª unidade do gênero no Estado, após diálogo direto com o prefeito Vinicius Camarinha. Entretanto, desde aquele encontro até março de 2026, o que se sucedeu foi um longo ciclo de promessas não concretizadas, totalizando 11 anos e nove meses de espera.
Em posicionamento oficial após demanda da reportagem do jornal A Cidade, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo esclareceu que o pedido de credenciamento do Parque Tecnológico de Marília não teve prosseguimento devido à “ausência do envio da documentação necessária, conforme Decreto nº 60.286/14”. Apesar do travamento burocrático do parque, a pasta estadual ressaltou que o município não está desassistido de infraestrutura tecnológica.
Atualmente, Marília possui três ambientes credenciados no Sistema Paulista de Ambientes de Inovação (Spai): o Centro Incubador de Empresas de Marília (CIEM/Univem), o Centro de Inovação do Univem e o Centro de Inovação Tecnológica da Faculdade de Medicina de Marília (CIT-FAMEMA).
O destino das áreas reservadas no distrito de Lácio
A área originalmente reservada para a instalação do complexo tecnológico, localizada no distrito de Lácio, reflete a mudança de rumos das gestões municipais ao longo da última década. Durante o governo de Daniel Alonso, o espaço foi utilizado inicialmente como uma área para acumula inservíveis e entulhos - inclusive o Município chegou a receber multa da Cetesb por isso - e, mas no final dos 8 anos de gestão, serviu para a realização de rodeios, evento que até então vinha gerando embates judiciais na cidade por conta da resistência de organizações não governamentais de defesa da causa animal.
Na ocasião, a Justiça acatava embargos de impedimento fundamentados em evidências de maus-tratos aos bovinos e equinos. Recentemente, o terreno recebeu um novo destino institucional e deverá abrigar o Ambulatório Médico de Especialidades (AME), sob a responsabilidade do atual prefeito Vinicius Camarinha.
A Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia reforçou que a sua equipe técnica permanece à disposição para orientar a retomada do processo de credenciamento do parque mariliense. Contudo, os dados consolidados do Spai até outubro de 2025 mostram que Marília permanece classificada apenas com membros associados.
O fortalecimento do empreendedorismo tecnológico local depende agora de uma ação administrativa municipal que vença a barreira documental imposta pelo decreto de 2014. Sem o envio formal dos requisitos, o projeto que prometia integrar a ciência e a indústria regional como ocorre em centros como São José dos Campos e São Carlos continua restrito aos arquivos de intenções, aguardando resolutividade.
O panorama do Inova Simples e o crescimento das startups em São Paulo
O panorama da inovação no Estado de São Paulo apresenta uma dinâmica de crescimento acelerado através do regime Inova Simples, modalidade jurídica criada pela Lei Complementar nº 167/2019 para facilitar a formalização de startups e negócios disruptivos. De acordo com dados da Fundação Seade e da Receita Federal, o número de empresas simples de inovação ativas no estado saltou de apenas 6 unidades em 2021 para 1.149 em 2024, atingindo a marca de 1.881 empresas em maio de 2025. Este regime oferece um rito sumário para abertura, alteração e fechamento de negócios, visando estimular o desenvolvimento de agentes indutores de avanços tecnológicos e a geração de emprego e renda em todo o território paulista.
Na distribuição geográfica destas empresas, a Região Metropolitana de São Paulo concentra a ampla maioria, com 1.301 unidades (69,2% do total), seguida pelas Regiões Administrativas de Campinas, com 144, e São José dos Campos, com 93. No recorte municipal, Marília figura com 10 empresas ativas sob o regime Inova Simples até maio de 2025. Em termos setoriais, predominam no estado os serviços administrativos com 341 empresas, seguidos por tecnologia da informação com 307 e educação com 250 unidades. O Inova Simples concede tratamento diferenciado para estimular a criação e consolidação dessas iniciativas, permitindo que a inovação avance mesmo diante de entraves burocráticos em projetos físicos de maior escala.