Cidades Editorial
EDITORIAL - A mobilidade de um novo tempo
A valorização do transporte em massa é a única saída viável para evitar o colapso logístico
14/02/2026 17h23 Atualizada há 2 horas
Por: Redação
Foto: Divulgação/PMM

A realidade do transporte coletivo em Marília, exposta em ampla reportagem na última edição deste jornal A Cidade, revela um cenário de exaustão que exige respostas imediatas do poder público. O relato dos usuários é contundente: superlotação em linhas críticas, como as que interligam o centro ao campus universitário, atrasos que superam uma hora e a ausência de itens básicos de conforto, como o ar-condicionado. Somam-se a isso entraves burocráticos inaceitáveis, a exemplo da dificuldade para a obtenção do passe destinado a crianças autistas. Tais deficiências não são apenas falhas operacionais isoladas, mas sintomas claros de um modelo de concessão que, após 15 anos de vigência, já não consegue suprir as necessidades de uma cidade que cresceu e se transformou profundamente.

Com o encerramento do contrato atual, que contempla duas companhias, a gestão municipal já sinalizou a preparação de uma nova licitação para os próximos 15 anos. Este é o momento crucial para redesenhar o sistema, pois o transporte público não é um tema de interesse restrito a quem depende exclusivamente das linhas de ônibus. Ele é o eixo central que dita a fluidez do cotidiano de todos os cidadãos, inclusive daqueles que optam pelo transporte individual. A eficiência das pautas coletivas reflete diretamente na qualidade de vida de quem acabou de retirar um carro zero da agência e já enfrenta as avarias e o estresse dos engarrafamentos frequentes em pontos nevrálgicos da nossa malha viária urbana. 

O congestionamento na avenida Rio Branco, especialmente nos horários de entrada e saída dos campi universitários na região Oeste, ilustra perfeitamente esse gargalo. A superlotação das linhas que atendem essa área força mais pessoas a utilizarem veículos próprios, saturando as vias e gerando um efeito dominó de atrasos e acidentes. Se o sistema oferecesse ônibus de alta qualidade, equipados com ar-condicionado, Wi-Fi, poltronas confortáveis e pontualidade rigorosa, haveria um desestímulo natural ao uso do automóvel particular para trajetos rotineiros. A mobilidade urbana inteligente pressupõe que o transporte coletivo seja uma escolha vantajosa por sua eficiência, e não um último recurso por falta de opção financeira. 

O planejamento urbano de Marília tem avançado a passos largos, com a abertura constante de novos loteamentos e complexos residenciais, mas a infraestrutura de transporte não tem acompanhado esse ritmo. Além da região Oeste, a ala Norte sofre com gargalos semelhantes na avenida Sanches Cibantos, onde o fluxo de veículos beira o colapso em horários de pico. É imperativo que o novo edital de licitação contemple uma integração real entre o crescimento imobiliário e a oferta de transporte, evitando que bairros recém-nascidos já surjam isolados ou dependentes exclusivamente de malhas viárias que já operam no limite de sua capacidade de escoamento e suporte. 

A comparação com o cenário de 15 anos atrás é reveladora: naquela época, mais de um milhão de pessoas utilizavam o sistema mensalmente, número que hoje caiu para menos de 500 mil. O advento de aplicativos de transporte, a facilidade de financiamento de motocicletas e a popularização de patinetes elétricos mudaram o perfil do deslocamento urbano. Essa queda superior a 50% no volume de passageiros pode afastar o interesse de grandes empresas na nova licitação, o que exige criatividade do Executivo. O debate sobre subsídios municipais e contrapartidas financeiras para baratear a passagem torna-se inevitável para garantir que o serviço seja viável economicamente e atrativo para o mercado. 

Dentro dessa nova lógica econômica, Marília deve observar exemplos de cidades de mesmo porte que já implantaram políticas inovadoras, como o passe livre aos finais de semana. Tal medida não apenas democratiza o acesso ao lazer e ao comércio, mas também ajuda a reeducar a população sobre as vantagens do uso do ônibus, fortalecendo o sistema como um todo. A contrapartida do Município não deve ser vista como gasto, mas como investimento em produtividade e redução de custos externos, como poluição e saúde pública. Uma cidade que subsidia sua mobilidade está, na verdade, investindo no tempo e na liberdade de deslocamento de seu povo de forma sustentável. 

A nova licitação deve, portanto, ser o marco zero de uma mobilidade de tempos modernos para Marília, focada na sustentabilidade e na tecnologia. É fundamental que se priorize a inclusão de veículos elétricos na frota, reduzindo a emissão de ruídos e poluentes, alinhando a cidade às pautas ambientais globais. O transporte coletivo do futuro precisa ser multimodal, conversando harmoniosamente com ciclovias seguras e calçadas que respeitem a integridade do pedestre. A valorização do transporte em massa é a única saída viável para evitar o colapso logístico de uma cidade que se orgulha de seu progresso, mas que ainda tropeça em conceitos de mobilidade do século passado. 

O Jornal A Cidade defende que a próxima concessão não seja apenas uma renovação de nomes, mas uma revolução de conceitos. O conforto, a tecnologia e a modicidade tarifária devem ser os pilares de um sistema que orgulhe o mariliense e devolva a agilidade às nossas avenidas. Esperamos que a administração municipal tenha a coragem de propor um edital audacioso, que coloque o passageiro no centro das decisões e que trate a mobilidade como o direito fundamental que ela é. Somente com um transporte público eficiente e moderno poderemos garantir que Marília continue crescendo com fluidez, segurança e, acima de tudo, respeito ao tempo de cada cidadão que aqui vive.