Uma das mais antigas vias públicas de Marília, avenida Brasil, no centro de Marília, vive uma crise de insegurança. O problema esbarra na ordem pública, já que nos últimos meses, a avenida (tradicionalmente um polo de movimentação econômica e intenso fluxo de pessoas) passou a ser palco de aglomeração de andarilhos e pessoas em situação de rua. Clima de constante tensão é vivido por quem trabalha e depende da avenida.
A reportagem do jornal A Cidade, após receber pedidos de comerciantes, percorreu o trecho e constatou que a atividade econômica deu lugar ao receio, evidenciado por portas que hoje contam com barreiras reforçadas de ferro para impedir abordagens agressivas. A sensação de vulnerabilidade é sustentada por episódios recentes de violência extrema que chocaram a opinião pública mariliense. Entre o final de dezembro de 2025 e o início de janeiro de 2026, dois graves episódios comprovam a gravidade da situação: primeiro, a localização de um homem gravemente ferido em um trecho ermo próximo aos trilhos da avenida das Indústrias e, depois, em 7 de janeiro, uma tentativa de homicídio a facadas na rua Nove de Julho. Este último crime ocorreu a poucos metros do Terminal Urbano, em plena luz do dia, em uma área ao lado dos estabelecimentos onde os comerciantes relataram viver sob o medo constante.
Para os proprietários de estabelecimentos, o silêncio é a única garantia de segurança, e todos os entrevistados aceitaram falar apenas sob a condição de anonimato, temendo represálias diretas de grupos que circulam pela região. Um dos comerciantes, que recentemente instalou grades de ferro para blindar seu patrimônio, aponta que o fluxo migratório de andarilhos se intensificou drasticamente nas últimas semanas.
Em seu relato, destacou uma nova configuração desse público. “Eles entram aqui e pedem ajuda, relatam que estão vindo de Mato Grosso, do Paraná e até mesmo lá de Santa Catarina”, evidenciando que Marília se tornou um ponto de convergência para migrantes de diversos Estados. Essa percepção de um aumento demográfico descontrolado nas calçadas é compartilhada por quem vivencia o cotidiano da avenida Brasil e seus arredores, como a praça São Bento e o entorno do terminal urbano.
Um trabalhador local relatou à reportagem que a permanência dessas pessoas tornou-se mais frequente e intimidadora, com aglomerações que afastam o fluxo de pedestres e clientes. Segundo ele, a chegada constante de indivíduos vindos de fora, sem qualquer vínculo com a cidade, contribui para um ambiente de instabilidade. Em contrapartida, o movimento comercial na avenida Brasil míngua gradativamente.
Spray de pimenta e porrete
O desespero de quem tenta manter as portas abertas é materializado em medidas de autodefesa que beiram o limite da legalidade e da segurança pessoal. Um empresário da região revelou portar spray de pimenta e até um porrete atrás do balcão para garantir sua integridade física diante de abordagens que frequentemente escalam para a agressividade. “Dificilmente não encontro alguém dormindo na porta do meu comércio quando chego para subir as portas no começo da manhã, e muitas vezes preciso chamar a polícia para conseguir dispersar os andarilhos e iniciar o meu dia de trabalho, o que gera um desgaste emocional imenso”, disse.
O crime de oportunidade, como o furto, tornou-se uma rotina tão presente que alterou inclusive a gestão de recursos humanos nas lojas locais. Um lojista explicou que não permite mais que apenas um funcionário cuide do estabelecimento, estabelecendo uma norma de segurança que exige a presença mínima de dois colaboradores para inibir a ação dos infratores. “Os moradores de rua passam e, se notam que há somente um funcionário, entram e tentam furtar. Já perdi as contas de quantas vezes fui furtado nos últimos anos”, desabafou o comerciante.
Vandalismo quase acaba em incêndio
Além do patrimônio material, o vandalismo e os riscos de sinistros graves deixam marcas literais nas fachadas, como é o caso de uma porta de aço que ainda exibe as cicatrizes de uma tentativa de incêndio criminoso. O proprietário narrou que andarilhos amarraram cães na entrada do comércio e, em um episódio de vandalismo gratuito, atearam fogo em uma garrafa PET que quase provocou um incêndio de grandes proporções no local. Esse tipo de transtorno, somado ao registro recente de furto de uma motocicleta na vizinhança, consolida um cenário de abandono que afugenta o consumidor.