Papa Francisco, que nos deixou em abril de 2025, para o bispo diocesano dom Luiz Antônio Cipolini é um dos maiores homens do Século XXI. O antecessor de Cipollini na Diocese de Marília, o bispo emérito dom Osvaldo Giuntini - recentemente falecido - ensinou para ele e para todos os fiéis católicos que a humildade se manifesta no respeito a todos. “Sempre educado, gentil, atencioso e respeitoso, dom Osvaldo foi pai e amigo de todos, orientando-nos para o Evangelho de Cristo”, afirmou em entrevista exclusiva à reportagem do jornal A Cidade. O religioso à frente de meio milhão de fiéis, distribuídos em quase 40 cidades da região Oeste do Estado de São Paulo, abordou nesta conversa jornalística o contexto da mídia instantânea e o efeito da digitalização da vida.
“Precisamos instaurar entre todos aquilo que o Papa Francisco chamou de ‘cultura do encontro’. As tecnologias não devem nos distanciar, ao contrário, elas podem promover o encontro e nos unir para a caridade”, salientou o religioso. Com relação ao novo pontífice, o Papa Leão XIV eleito no conclave realizado dias após a morte de Francisco, Cipolini observou a missão da continuidade na unificação da Igreja Católica. “O Papa Leão XIV é o Papa que Deus nos deu neste novo tempo. O trabalho dele é de continuidade! Na Igreja não há ruptura! Quem nos direciona é o Espírito Santo que, na docilidade e na sensibilidade devida, a cada época suscita homens para que governem a Igreja apresentando ao mundo as respostas necessárias para cada momento e situação”, frisou.
A seguir, leia a entrevista e confira a mensagem especial de final de ano elaborada para os leitores do jornal A Cidade pelo bispo diocesano de Marília.
A Cidade - Marília conta com uma significativa população de mais de 111 mil católicos, a comunidade enfrentou recentemente duas grandes perdas sentidas mundialmente e localmente: o falecimento do Papa Francisco no primeiro semestre e, dias atrás, a partida do Bispo Emérito Dom Osvaldo Giuntini. Gostaríamos de saber, na sua visão, o que estes dois nomes representaram para a Igreja Católica de Marília e universalmente, e quais foram as principais mensagens que suas respectivas vidas e ministérios conseguiram transmitir e deixar gravadas nos corações dos fiéis.
Dom Luiz Cipolini - Na história da humanidade, o Papa Francisco certamente será reconhecido como um dos homens do nosso século. Ao pedir aos católicos uma “Igreja Sinodal e em saída”, desde o início de seu pontificado, e à humanidade a leveza da simplicidade no agir, ele deixou a todos nós um legado primordial: que a proximidade com Deus e a proximidade entre nós ajuda-nos a reconhecer que podemos ser irmãos e irmãs vencendo a discórdia e instaurando uma realidade mais fraterna. Além desta fraternidade universal o Papa Francisco nos ajudou a compreender que essa comunhão com Deus e com o próximo deve nos impelir a exercê-la também no cuidado para com a criação, aumentando em nós a consciência de uma ecologia integral já que vivemos todos na Casa Comum, como afirmava São Francisco de Assis. Nestes 43 anos que Dom Osvaldo esteve na Diocese de Marília aprendemos dele que a humildade se manifesta no respeito a todos! Sempre educado, gentil, atencioso e respeitoso, Dom Osvaldo foi pai e amigo de todos, orientando-nos para o Evangelho de Cristo.
A Cidade - Olhando para os desafios impostos pelo mundo contemporâneo, especialmente com os rápidos adventos da tecnologia, da inteligência artificial e de novos modelos sociais, quais são os maiores desafios que a comunidade católica de Marília e do Brasil enfrenta hoje? O senhor acredita que os princípios da ética católica e a sua moral milenar conseguirão sobreviver e orientar os fiéis diante dos padrões complexos e velozes da modernidade?
Dom Luiz Cipolini - Neste contexto de midiatização em que a lógica mercantilista dos algoritmos dita a vida das pessoas, o maior desafio eclesial se centra na responsabilidade de construir pontes para que entendamos que é na vida de comunidade que as relações verdadeiramente acontecem. Precisamos instaurar entre todos aquilo que o Papa Francisco chamou de “cultura do encontro”. As tecnologias não devem nos distanciar, ao contrário, elas podem promover o encontro e nos unir para a caridade.
A Cidade - Em relação ao novo pontificado, como o senhor avalia os primeiros meses do papado de Leão XIV? Quais são as primeiras impressões sobre o direcionamento que ele está imprimindo na Igreja, e como estas novas ênfases podem impactar a vida e a pastoral da Diocese de Marília?
Dom Luiz Cipolini - O Papa Leão XIV é o Papa que Deus nos deu neste novo tempo. O trabalho dele é de continuidade! Na Igreja não há ruptura! Quem nos direciona é o Espírito Santo que, na docilidade e na sensibilidade devida, a cada época suscita homens para que governem a Igreja apresentando ao mundo as respostas necessárias para cada momento e situação. Ontem era Francisco, hoje Leão, amanhã não sabemos; contudo, uma coisa temos certeza: eles são sucessores de São Pedro Apóstolo, o primeiro Papa. E eu, como bispo diocesano de Marília, em comunhão com a Igreja em todo mundo, busco conduzir nosso povo para Deus sempre nesta perspectiva de unidade e continuidade.
A Cidade - Quanto ao cenário demográfico, estudos apontam a perspectiva de que, até 2050, o Brasil possa se tornar majoritariamente um país de fiéis evangélicos. Como o senhor, como líder diocesano, analisa esse panorama? Além disso, como o senhor vê a adesão crescente ao movimento evangélico nos últimos anos, e quais são os fatores que o senhor identifica para essa mudança no mapa religioso brasileiro?
Dom Luiz Cipolini - Mesmo diante destes números, notamos que a população brasileira continua majoritariamente católica, pois das 27 unidades da federação, 13 contam com proporção de católicos superior à média nacional (56,7%). Constatação que observamos também na Diocese de Marília que, ao considerar as 37 cidades que compõem nosso território diocesano, temos a média de 58,76% da população que considera-se católica. Em Marília, sede do nosso bispado, os católicos são 53,34% da população.
Neste sentido, é louvável considerarmos o grande número de adultos que procuram o Batismo em nossas paróquias. Observo isso, de modo partilhar, além dos jovens e adolescentes que anualmente confiro o Sacramento da Crisma, pela quantidade de homens e mulheres adultos que buscam a maturidade da fé por meio deste Sacramento que também é chamado de Confirmação. Para além das estatísticas, isso é sinal de conversão e de sentimento de pertença eclesial, fruto natural do amadurecimento religioso de nosso povo.
Frente à estatística do IBGE e também ao que verificamos na prática da fé, como bispo diocesano, motivo aos ministros ordenados e às lideranças pastorais que invistamos no processo de Iniciação à Vida Cristã, como tem indicado a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e valorizemos os modos de agrupamento e carismas de pequenas comunidades eclesiais para que a fé católica seja sinal visível do amor de Deus entre nós no cumprimento do mandato missionário de Cristo (Mc 16, 15).
Como pastor, o que realmente me preocupa e o que deve nos provocar enquanto Igreja, é o aumento do número dos brasileiros que se declararam sem religião (de 7,9% para 9,3%). Por isso, façamos de nossas paróquias, comunidades e grupos eclesiais, lugares de acolhida sincera a fim de que nos estruturemos cada vez mais como “Igreja em saída” que vai ao encontro daqueles que estão nas “periferias existenciais”, como nos últimos anos nos motivou o Papa Francisco, de saudosa memória.
Assim, convido todos os católicos a serem fermento de unidade para que o mundo conheça o amor de Deus por meio da caridade vivida entre nós e pela nossa atuação na sociedade. Façamos ecoar em nossos corações o ensinamento do Papa Leão XIV: “a vida cristã não se vive isoladamente, como se fosse uma aventura intelectual ou sentimental, confinada em nossa mente e no nosso coração. Ela se vive com os outros, em grupo, em comunidade, porque Cristo ressuscitado se faz presente entre os discípulos reunidos em seu nome" (06/06/2025, por ocasião da Audiência com os moderadores de Associações de Fiéis, de Movimentos Eclesiais e de Novas Comunidades).
A Cidade - Existe a possibilidade de se construírem ou dedicarem na Diocese de Marília igrejas em homenagem aos santos brasileiros mais recentes, como São Frei Galvão, Santa Dulce dos Pobres ou os santos mártires brasileiros do Rio Grande do Norte, como um incentivo à devoção nacional?
Dom Luiz Cipolini - A estrutura pastoral de nossa Diocese é “em saída e sinodal” em comunhão com a Igreja de todo o mundo. Estamos nos preparando para celebrar os 75 anos da Diocese em 2027. Assim, no dia 22 de fevereiro de 2026, em Assembleia Pastoral Diocesana, vou convocar um Sínodo Diocesano em sintonia com o Sínodo sobre a Sinodalidade convocado e iniciado pelo Papa Francisco e confirmado pelo Papa Leão XIV até 2028. O Sínodo acontecerá para que a Diocese de Marília esteja cada vez mais próxima das pessoas sendo referência de fé e construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Para acompanhar o crescimento urbano de Marília, programamos para o início de 2026, no dia 31 de janeiro, a criação da 20ª paróquia da cidade e a 67ª da Diocese. Localizada na zona oeste de Marília, a Paróquia de São João Bosco e Nossa Senhora Auxiliadora atenderá pastoralmente aquela região que está em constante desenvolvimento.
A Cidade - Uma mensagem para os fiéis católicos e população das 37 cidades da Diocese de Marília
Dom Luiz Cipolini - Gostaria que minha benção, saudação e proximidade alcance os católicos e todas as pessoas de boa vontade para que o nascimento de Jesus converta nossos corações e nos faça pessoas do amor, da esperança e da alegria. O Natal é a certeza de que não estamos sós! O Emanuel, o Deus conosco, vem em forma de menino para nos fortalecer! Vivamos, então, em Jesus, com Jesus e por Jesus. Preparemos os nossos corações.