Cidades FACE DA EXCLUSÃO
3.190 pessoas moram em áreas precarizadas em Marília, onde não há luz formal ou esgoto, mostra mapa inédito do Censo 2022
Estudo do IBGE mostra que há um déficit e de saneamento que afeta as 13 favelas da cidade
19/12/2025 00h34
Por: Redação
Ruas sem asfalto e sem esgoto: Marília possui 13 favelas. Rio de Janeiro tem 800 a mais e SP lidera o ranking das comunidades precárias

A invisibilidade dos bairros mais carentes de Marília ganhou contornos oficiais. Dados recentes do Censo 2022 do IBGE, analisados pela reportagem do jornal A Cidade, revelam que 3.190 habitantes da cidade vivem em 13 aglomerados subnormais, a definição técnica para favelas e comunidades urbanas precárias. O retrato- que corresponde a 1,34% da população mariliense - é de um município que, apesar de ser um polo regional em desenvolvimento, esconde um déficit brutal de urbanização básica em pleno Século XXI. A principal lacuna dessas comunidades é a ausência de saneamento adequado, com parcelas significativas da população vivendo sem esgoto ou coleta formal de lixo, uma falha que expõe o planejamento urbano e a prioridade das gestões municipais. O contraste é ainda mais gritante ao Marília ser uma das raras cidades brasileiras com estações que afastam e tratam o esgoto de residências e imóveis formais - que estão conectados à rede atualmente administrada pela RIC Ambiental.

A precariedade se manifesta de forma mais aguda no que diz respeito à infraestrutura mínima de habitabilidade. Muitos dos moradores desses assentamentos sequer dispõem de sistema de esgotamento sanitário por rede geral, dependendo de soluções rudimentares como fossas rudimentares ou, pior, a ausência total de tratamento. O déficit não para por aí: 1.5% das moradias estão sem acesso a água encanada e 13% sofrem com a falta de coleta regular de lixo, forçando comunidades a conviver com o descarte inadequado e com os riscos ambientais e de saúde decorrentes. Os números do Censo funcionam como um raio-X social que o poder público vinha se esforçando para ignorar ao longo dos anos.

A 163ª do Brasil

O problema de Marília, contudo, é um espelho ampliado da desigualdade brasileira. O município, com 1.222 domicílios distribuídos das 13 favelas locais, ocupa a 163ª posição no ranking nacional das cidades com favelas e comunidades urbanas, uma lista que é ironicamente liderada por São Paulo. A capital, a cidade mais rica do Brasil e do continente, é também a que mais concentra populações em condições precárias, somando 1.359 favelas. Em seguida, vem o Rio de Janeiro, a 2ª colocada, que possui impressionantes 813 comunidades, mais de 800 favelas a mais do que o total registrado em Marília.

Além do saneamento, 8,2% dos domicílios nessas áreas não possuem nem sequer pavimentação na rua do entorno, o que transforma o tráfego e o acesso em verdadeiros desafios em dias de chuva. A luz formal também é um problema: 1,9% das casas não têm iluminação pública e 1,5% estão sem o fornecimento de energia elétrica.

As 13 favelas e comunidades urbanas precárias de Marília catalogadas pelo Censo 2022  são: Alcides Matiuzzi, Argolo Ferrão, Homero Zaninotto, Jardim Eldorado (conhecido como Bronks), Jardim Santa Paula, Jardim Virgínia (o Bugrinho), Parque das Azaleias, Parque das Nações, Parque das Vivendas, Toffoli, o histórico trilho da antiga Fepasa e a tradicional Vila Barros.

Os desfavelamentos recentes

Marília não possui programas de desfavelamento ativos desde 2016. Na época, durante o primeiro mandato (2013-2016) do atual prefeito Vinicius Camarinha, houve um esforço concentrado que resultou na retirada de famílias que viviam sob os fios de alta tensão na zona Norte, popularmente conhecida como a 'Favela do Linhão'.  No mesmo período, foram erradicadas as comunidades da Vila Altaneira, do Jânio Quadros e uma ocupação irregular na zona Oeste, com as famílias removidas e alojadas em casas de alvenaria em conjuntos como o Marina Moretti, no extremo Norte, ou em apartamentos do residencial São Bento, no extremo Sul.

Apesar dos avanços de oito anos atrás, a paralisação dos programas de regularização fundiária e urbanização desde 2016 permitiu que novos focos de precariedade se consolidassem, enquanto os antigos continuam a operar à margem da lei e da dignidade. A falta de continuidade na política habitacional é um dos principais fatores que perpetuam o ciclo de assentamentos informais, onde a moradia precária se torna a única opção para famílias de baixa renda. É uma conta social que, se não for paga agora com investimentos em infraestrutura, será cobrada no futuro com mais violência e exclusão.

Além da ausência de pavimentação e saneamento, o acesso ao lazer e à cultura é negligenciado: 8% das moradias estão em entornos sem nenhuma área verde ou de lazer, e 1,5% sem quadra ou campo esportivo.

O diagnóstico do Censo 2022 é inquestionável: quase 3.200 mil marilienses, o equivalente à população de um município pequeno, a exemplo de Alvinlândia, Arco-Íris ou Oscar Bressane, vivem em condições que remetem ao século passado. Porém, o mapa da precariedade que está desenhado, pode ser redesenhado com políticas públicas e iniciativas habitacionais com trabalho do Município e apoio do Estado e Governo Federal.